SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE PIRACICABA

SUICÍDIO

1 de julho de 2019 • Romualdo Filho

Por PAULA BECKER*

João era um homem feliz. Aos 49 anos tinha um bom casamento. Era pai orgulhoso de uma filha prestes a ingressar na faculdade. Um pouco acima do peso, porém sem nada a se queixar de sua saúde. Casa própria, que conquistou ao dedicar-se 25 anos ao trabalho numa mesma empresa. Faltando 6 anos para se aposentar, considerava-se um homem bem-sucedido, apesar dos percalços encontrados no caminho. Até uma desinteressada manhã de segunda-feira, quando soube que estava sendo dispensado de seu trabalho. João perde o chão, fica desnorteado. Sensação que o acompanha por semanas após aquela fatídica manhã. Quem irá prover as necessidades de sua família? Suas filhas teriam que abandonar o sonho da faculdade? Sem trabalho, qual era agora o propósito dos dias que se seguiam, descompromissados e vazios?

Desesperançoso quanto ao futuro e uma possível recolocação no mercado de trabalho, João não encontra mais motivos para sair da cama, perde o apetite, sente-se um fardo para a família e não vê mais motivos para viver. Parentes e amigos não entendem o porquê de tamanho abatimento, afinal de contas, era só um emprego! Quanta frescura! Ele tem tudo e ainda reclama! Mas poucos, ou ninguém, sabe que a perda do trabalho fora somente a última gota. O copo de João vinha se enchendo há muito tempo, quando desde criança teve que aprender a reprimir seus sentimentos e a viver a ideia do homem que somente cuida e nunca é cuidado. Que deve sempre prover, mas nunca ser ajudado ou expor suas vulnerabilidades e necessidades. Que calcula e tudo prevê, tendo que lidar diariamente com a frustração que a aleatoriedade e imprevisibilidade das coisas lhe imprimiam. João agora transborda, as dores de toda uma vida começam a cobrar de serem sentidas.

Essa é uma entre tantas histórias vivas que nos trombam o ombro nas ruas, dos olhares que encontramos em nossos distraídos ir e vir, que pulsam no peito daqueles que chamamos de amigos mas que só conhecemos a rasa camada que se apresenta em breves encontros sociais, ou nos superficiais perfis digitais. Histórias que só teremos a possibilidade de conhecer ao nos despojarmos da energia psíquica que, por vezes, inconscientemente investimos para nos mantermos numa confortável distância emocional do outro, mesmo que esse outro seja aquele que tanto amamos.

A vida é um eterno escalar montanhas, assim como a chegada ao topo, a descida ao vale é essencial para seguirmos evoluindo e nos desenvolvendo na trilha que escolhermos seguir. A felicidade nunca foi, é ou será uma constante na vida de qualquer um de nós. E como sabiamente concluiu Christopher McCandless, ela só é real quando compartilhada. Então por que a relutância em aceitarmos que precisamos também compartilhar nossas angústias, tristezas e inquietudes para assim validarmos e superarmos essas experiências?

Quando a dor nos parece insuportável, mentalmente buscamos alternativas para que ela acabe. Nesse momento, a ideação suicida pode surgir. Mas é importante que saibamos compreender em nós mesmos, e também no outro, que a ideação suicida nada mais é do que a vontade de vida se expressando em sua potência máxima. Queremos que a dor acabe, e não necessariamente a nossa vida. Contudo, para que consigamos encontrar outras possibilidades de lidar com tamanha dor, é importante que saibamos onde encontrar ajuda.

O SUS oferece apoio gratuito as pessoas em sofrimento e com ideação suicida nos seguintes endereços em Piracicaba:

Ambulatório de Saúde Mental da Vila Cristina – Rua Antonio Augusto de Barros Penteado, 422, Jd. Elite

Ambulatório de Saúde Mental da Vila Sônia – Rua Dino Bueno, 565, Vila Sonia (18 anos ou mais)

Centro de Atenção Psicossocial da Bela Vista – Rua Bela Vista, 665, Vila Independência (18 anos ou mais)

Ambulatório de Saúde Mental Infanto Juvenil – Rua XV de Novembro, 2517, Alto (menores de 18 anos)

Além disso, ao discar o número 188 você encontrará do outro lado da linha, 24 horas por dia e nos 7 dias da semana, alguém preparado para te ouvir e orientar nos momentos difíceis. As ligações também são gratuitas.

Compartilhe sua felicidade, assim ela será verdadeiramente real. Compartilhe suas dores, assim poderá validar suas experiências e caminhar sentido a maturidade. A luta pela valorização da vida acontece todos os dias, não há mês ou cor capazes de representar tamanha grandiosidade. Lutemos pela vida hoje: sejamos bons ouvintes daqueles que estão em sofrimento e saibamos pedir ajuda no lugar e momento certo.

*PAULA BECKER

Doutora em Psiquiatria e Psicologia Médica

Terapeuta Ocupacional do Programa de Saúde Mental da Secretaria de Saúde de Piracicaba

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